Os Tambores de 200 Litros

Estávamos em Matadi no Zaire, saímos apenas para beber umas cervejas geladas num pequeno bar que existia muito perto do portão do bar. Por sinal um lugar tranquilo, até bastante agradável para o local, com umas mesas ao ar livre cobertas por frondosas árvores.

Acabo o beberete, fazíamos questão de nos recolher ao navio, para onde nos dirigimos. Junto ao portão estavam sempre alguns artesãos tentando vender as suas pequenas bugigangas, pequenas estatuetas, elefantes, arte africana em pau preto.

Para acabar de gastar o que nos restava da moeda local, uma vez que sairíamos no dia seguinte, resolvemos comprar algum artesanato.

Já com as peças na mão quando íamos a chegar ao portão do porto surgem um graduado acompanhado de dois soldados armados.

Pediram-nos o passe, que mostrámos, dizendo-nos o graduado: - Acabaram de cometer um delito muito grave, compraram artesanato, o que é proibido.

Respondemos nós: - Tudo bem, fazemos questão de to oferecer. Diz ele: - Isso não é assim, vão ter de me acompanhar à esquadra, o delito é grave, o artesanato não pode ser exportado sem autorização.

Logo nos apercebemos que havia ali uma nítida tentativa de extorsão e de abuso de autoridade, mas não estávamos dispostos a dar-lhe alguns dólares que tínhamos sempre estrategicamente escondidos, num cinto das calças, para qualquer emergência.

Acompanhamos o graduado mais os soldados, começando os cinco a dirigirmo-nos para fora do recinto urbano, por uma pequena estrada de terra batida. Andámos cerca de meia hora, apercebemo-nos que andávamos às voltas, até que se cruza connosco, um dos locais que costumava ir a bordo para nos trocar dinheiro, dirigiu-se ao graduado: - Vê lá o que andas a fazer, olha que levas aí o primeiro oficial e o chefe de máquinas. Ele riu-se. Nós pedimos: - Avisa o comandante que fomos detidos.

Continuámos a caminhada, até que perguntámos: - Afinal, onde é a esquadra, estamos fartos de andar e nunca mais chegamos. Responde ele: - É já ali.

Continuámos a caminhar, os soldados mostravam já um ar enfadado, pois a caminhada parecia não terminar nunca mais. Ainda olhamos um para o outro, equacionando se nos havíamos de atirar a eles. Os dois soldados dominavam-.se bem, era questão de lhes agarrar nas cabeças e bater uma contra a outra, o problema era o graduado que tinha a arma no coldre.

Desistimos da ideia, dizendo ao graduado: - Vamo-nos sentar e não andamos mais, estamos cansados. Ele sorrindo disse: - Se fizerem isso sou obrigado a usar a violência.

Contra factos, não há argumentos. Quem está armado tem sempre razão.

Surge, entretanto, um tripulante grego de outro navio acompanhado com duas prostitutas. O graduado prende-os também.

Era já um pequeno grupo, de oito pessoas a caminho de uma esquadra que não existia. Fez-nos lembrar uma rábula de um filme português “O pátio das cantigas” em que após um desaguisado no bailarico, vai tudo para a esquadra atrás do polícia.

Não estávamos dispostos a andar a noite toda naquele circo e muito menos a pagar-lhe alguma coisa para nos libertar.

Surgiu-nos então uma ideia, os tambores vazios de duzentos litros de óleo em Africa tem bastante valor, chegando a ser vendidos por quinze dólares cada um para depois armazenarem água.

Dirigimo-nos a o graduado: - Eh, pá, nós não temos dinheiro aqui, mas lá a bordo temos tambores de óleo, que amanhã podes ir lá buscar, deixa-nos ir embora.

Vendo ali uma oportunidade de negócio, perguntou quantos tambores tínhamos, nós dissemos temos três.

Ele disse, três cada um e podem ir embora. Era o que queríamos ouvir, nem que tivesse pedido vinte, não fazíamos a mínima tenção de lhe dar nenhum.

No dia seguinte pelas sete horas, sentimos umas pancadas na porta do camarote, dizendo o marinheiro filipino, que estava lá fora um graduado que queria falar connosco.

Viemos cá fora, ao convés. Lá estava o graduado todo sorridente, dizendo: - Chefe vim buscar os tambores.

Olhámos para ele com desdém, levantamos um antebraço, com aquele gesto sobejamente conhecido do dedo médio da mão esticado, dissemos: - Toma este tambor, então ontem fizeste-nos andar uma serie de quilómetros e ainda querias tambores, fuck you.

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