Um Problema Eléctrico e um Funeral

Freetown - Serra Leoa

 

Um Problema Eléctrico e um Funeral

Esta estória passa-se na Serra Leoa no porto de Freetown, nos anos noventa do seculo passado. Sempre foi um local bastante complicado para os marítimos. Nessa altura pior ainda, o país encontrava-se em período de plena guerra civil.

Havia pelo cais uma enorme quantidade de militares armados até aos dentes. Em terra também assim deveria ser, mas era de tal forma perigoso aventurarmo-nos terra dentro que nos sujeitávamos ao confinamento forçado a bordo do navio.

Os militares entravam a bordo, exigiam comida e sobretudo gasóleo, que nós sob a ameaça das armas lhes fornecíamos, sem questionar ou esboçar qualquer tipo de resistência.

Um belo dia, estávamos a fazer um serviço de manutenção no motor principal, usando como vestimenta apenas uns calções e os sapatos de trabalho, porque o calor e a humidade eram de tal forma sufocantes que tornavam muito penoso o uso do habitual fato de macaco.

Apareceu um soldado na casa da máquina pedindo/ordenando que um engenheiro se dirigisse com ele a casa do general para reparar um problema que tinha no sistema de iluminação.

O engenheiro vestiu uma camisola de alças, pegou num pequeno saco, onde colocou algumas ferramentas, para tentar solucionar o tal problema.

Acompanhou os dois soldados armados de Kalashnikovs a tiracolo, até um jipe descapotável que se encontrava no portaló do navio.

Rodaram cerca de quinze minutos, até que pararam frente a uma vivenda de dois pisos estilo colonial. Subiam dois degraus até à entrada do piso térreo, onde a porta era ladeada por duas colunas redondas. A vivenda tinha sido branca em tempos idos, apresentava agora uma cor amarelada e suja, fruto da falta de manutenção da mesma.

Entrou num amplo salão, onde se encontravam várias pessoas, entre eles mulheres a algumas crianças.

No centro da sala, sentado num cadeirão de veludo vermelho, como se de um trono de tratasse, encontrava-se um homem fardado de camuflado, com dragonas amarelas, boina castanha e óculos rayban tipo aviador, que deduzimos ser o general.

Depois de apresentados, este de uma forma educada e polida pediu-nos para resolvermos o problema que tinha na instalação eléctrica pois deixara de ter iluminação no salão.

Na altura deveríamos ter começado pelo mais simples, mas não, começámos por verificar se na saída do gerador que tinha a funcionar no quintal da residência havia tensão elétrica.

Na altura devido a problemas constantes na rede de distribuição eléctrica, os mais endinheirados optavam por ter geradores diesel eléctricos nas residências.

Havendo energia no gerador, pensámos residir o problema no interruptor. Desmontamo-lo, fizemos uma ligação directa, mas a luz teimava em não acender. Ficámos algo apreensivos, ao pensar que, para mal dos nossos pecados, haveria problema na fiacção.

Pedimos a um dos soldados que nos providenciasse um escada ou escadote para podermos verificar se havia algum problema no casquilho ou na lâmpada.

Como não havia escadote, um dos soldados colocou-se nas cavalitas de outro, desenroscou a lâmpada, tendo imediatamente visto que os filamentos se encontravam partidos.

Não tendo levado lâmpadas connosco, nem as tendo em casa o general, voltamos novamente a bordo para ir buscar algumas lâmpadas.

Voltamos á mansão do general, repetiu-se a operação com o soldado às cavalitas do outro. Após colocar a lâmpada fez-se luz.

O general, em breve conversa connosco, agradeceu-nos dizendo que nos gostaria de compensar da forma que entendêssemos. Poderíamos até escolher uma das mulheres que se encontrava no salão se quiséssemos.

Não que não nos agradasse a proposta, mas o receio era tão grande, que de forma delicada declinámos o convite alegando que tínhamos muito trabalho a bordo. Ficaria para outra oportunidade.

Passados dois ou três dias, voltam novamente a aparecer a bordo, dois soldados pedindo novamente a presença do engenheiro, por ordem do general.

A contragosto pegou novamente na saqueta com algumas ferramentas, e por precaução algumas lâmpadas. Foi magicando escadas abaixo, qual seria o problema desta vez. Era um ambiente hostil que lhe transmitia alguma sensação de temor, e até arrepios na espinha.

Chegado ao exterior, estranhou não ser transportado no jipe, sendo envolvido por uma enorme massa humana. Após breves instantes apercebeu-se que se encontrava num cortejo fúnebre.

Era um quadro de tal forma insólito, que até parece inverosímil. Ele de calções floridos, camisa de alças vermelha com manchas de óleo, sapatos de trabalho, um saco de ferramentas a tiracolo, branco como a neve no meio de uma turba de negros, num funeral.

Inquiriu um dos soldados que fazia menção de o acompanhar, perguntando, o que fazia ali. O mesmo respondeu: - Sabes, que o falecido era um homem de muito prestígio, é uma honra e um privilégio seres convidado para o acompanhar até à sua última morada, o general fez questão de te convidar…

Barata Lopes

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